segunda-feira, março 15, 2010

CATEDRAL SEM ACASO

“Não se envelhece enquanto buscamos.” Jean Rostand

Era um papel gasto e amarelo. As manchas do tempo no papel. Dobrado em quatro. Cada dobra, um vinco. O que poderá ter um papel?
Dobrado em quatro, com tantos vincos, um papel pode ter sentidos ímpares: caminhos dispersos e infinitos.
Uma frase cativa, no sublime das insónias dessa convenção (Tempo); uma frase se lê.
Quantas marcas de gestos, quantos olhares que os dias aprisionaram nestes vincos de papel e tudo pela frase inacabada, ou pelo papel várias vezes tocado, infinitas vezes olhado, inúmeras vezes sentido mas sempre abandonado? Sempre ali, no mesmo espaço físico como quem habita um lugar sem identidade à espera do encontro.
Naquele espaço da gaveta, dentro de um livro antigo: tão antigos o livro e o papel. Mais gasto e amarelo o papel.
Naquele espaço da gaveta, dentro de um livro antigo, ainda mora uma frase. Frase inacabada. Inacabada e eterna. Frase eternamente inacabada. Frase sem saber o que é a eternidade, onde mora e quanto vive.
Às vezes nas Esquinas, nas dobras ou nos vincos, do Tempo inauguramos caminhos que se iniciam com uma frase, apenas uma.
Neste papel dobrado com os vincos da Alma e guardado numa gaveta de sentir: uma frase – um nome, apenas. Apenas um nome. Três letras do tamanho de uma catedral gótica cujas torres sineiras parecem tocar os céus. Três letras tão gigantes como os maiores edifícios de pedra: de sempre.
Três letras com tanta luz como a rosácea do vitral que tens em ti. Tu és uma catedral sem acaso, etéreas letras verticais te moldam. O teu nome, de paredes mais leves e finas, de janelas predominantes, de torres ornadas por rosáceas, de arcos de volta quebrada... O teu nome escrito nas ogivas que te definem, faz de ti a maior catedral cujas absides guardo em mim e encerro no papel, cada vez mais gasto e amarelo.

Porque o que é verdadeiramente nosso, por isso imenso e intenso, jamais pode ser partilhado. Porque o teu nome é a casa que habito, catedral sem acaso.

2 Comments:

Blogger Wanderley Elian Lima said...

Olá
Nossa vida é igual a essa frase, inacabada. A cada dia construímos um pouco dela, e assim será até o final de nosso tempo.
Beijos

7:13 da tarde  
Blogger Oculto said...

O prolongamento dos teus dedos perfumam as palavras, nenhuma delas ao acaso, permanecem brilhantes mesmo quando adormecem.

Beijo

10:43 da tarde  

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