domingo, novembro 13, 2011

A COR DA MORTE

“Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.” Sophia de Mello Breyner Andresen


Certo dia. Um qualquer. Indefinido.
A cor da Morte. Vesti-la como se vivesse connosco desde o nascimento. Olhá-la de frente, como a bengala do caminheiro, como a bússola em ritmo de compasso final, olhá-la como se olha tudo o que não existe, na incerteza, na ausência, na dúvida do que pode ser. Senti-la como algo que acontece, tão-somente, aos outros.
A Morte. A Morte veste-se de neutro, não pede culpas. Deixa um rasto escuro como se das trevas que escondem Lilith, se tratasse. Talvez a Morte seja uma estrada opaca, densa e sombria ou talvez não seja nada. A Morte fecha a verdade: todos os olhos cerrados, sem vida, incapazes de dar resposta; emudece a boca na interdição do dizer. Ao longe avista-se num mar, ao perto a Morte é um rio sem nome, é água sem sabor. Fétido cheiro.
Só a música trava a Morte, só ela a enfrenta como quem despe amantes no baloiço do Amor.
Há uma Morte tirana, de cor rubra, inóspita e incandescente, é a Morte interior que alberga um abandonado, um rejeitado e faz dele um número cuja identificação é a assinatura do nome, com a ânsia a peito aberto (rasgado) de quem apela propriedade.

A Morte expropria-nos, leva-nos a vaidade, retira-nos o interior e o exterior, faz de nós um corpo que rápido será pó. Mas lenta, sanguinolenta e agressiva é a Morte interior, Morte sem cor, de um abandonado.

1 Comments:

Blogger quanto pesa o vento? said...

lindo!
soberbas palavras tecidas em forma tão candida.
abraço.

8:56 da tarde  

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