sexta-feira, novembro 11, 2011

Frios de Outono

(Klimt)
Madrinha
quando te sinto em mim sou todos os afluentes de mar

Um sino toca. Ao longe não se avista uma gaivota. Há um manto de pássaros dispersos e desalinhados sob os fios de alta tensão, há tanto tempo esperam partir. Ainda não é hora.
De que são feitas as horas? E os espaços entre as horas?
Um sino toca e não sei quem outorgou esta sina, não sei quem puniu Erínia ou feriu os amantes, não sei quem levou a esperança para o outro lado do mundo, que eu não sei se existe; não saberei nunca porque parte tudo aquilo que faz do peito um albergue pequeno, porque partem pessoas que nos embalam como bálsamo e nos perfumam com dedos infinitos de sentir.
Um sino toca. Avista-se um padre. Chove. Chove dentro e fora deste albergue chamado peito. Alguém muda a cor do céu e as gaivotas fogem do mar. Alguém as avista em terra. Ninguém confirma.
Nada. Vazio. Sombra.
Um hospital cheio de velhos como farrapos podres, em vésperas de morrer. O sino avisa. As gaivotas dele não se abeiram e no coração despem-se um a um, todos os bocados humanos quando nos cruzamos com o olhar vago de um abandonado.
Um sino toca e ninguém ouve. Há tanto barulho lá fora, uns porque um casaco não lhes basta para cobrir a pele, outros porque o pão de ontem já não serve e poucos, tão poucos, quase ouvem o som de um sino que trazem dentro de si e nunca souberam. Vai-lhes ditando a sorte, o fado, o destino, essa linha descosida ou o que demais se apelide vida e muitos, são tantos, os que deixam morrer os sons de amor e tapam os ouvidos aos sons que todos deveríamos ouvir.
Um sino tocou. Voou, lenta, uma gaivota sob o teu telhado esta noite e no teu peito a certeza de que os dias não voltam, que as flores murcham e que, por vezes nesses telhados de cristal a que chamas casa, habitam, lado a lado, contigo, todos os pertences, todos os nomes.
Um sino tocou? Avistaste um padre? Choveu? Amanhã um dia novo nasce, aproveita a chuva de hoje e não temas molhar os pés no frio do Outono. Muitos permanecerão em ti como gotas de um fruto suculento, Vida, outros mostrar-te-ão velhos amontoados nos hospitais mas que em ti permaneça sempre a sombra do fruto que te habita.

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