domingo, fevereiro 01, 2009

Chão de Amor

Abro os braços. Volto a ouvir a melodia dos deuses. Nesse lugar pouco visitado sei que me esperas do outro lado da Vida. Tantas ruínas restam desse lugar onde já mãos tocaram, olhos entraram, bocas beijaram, corações se uniram. Nada resta: vazio. Uma lembrança, apenas. Já gastas pelas intempéries dos sentidos guardam as pedras essas cores aveludadas que tingimos ao amar. Hoje na solidão, sinto paz. Vejo as colunas deste templo outrora erguido. Quanta beleza brota das mãos do que ousa criar. Quanta beleza sem par. De negro trajo desço do céu; o mesmo que um dia foi teu. Vejo que deixaste as portas abertas: marcas de uma saída a correr. Deixaste a vida, morreste antes de mim. O que sei de ti guardo no meu Ser como lembranças do que poderia ter sido: não dito ou não vivido. Ao tocar a primeira pedra deste edifício que um dia tu foste e eu também fui em ti, ao pisar cada tábua ou o que delas resta neste chão de Amor voltei a usar o mesmo vestido – tinha flores vermelhas: papoilas. Lembro-me como amavas esse vestido, os botões pequeninos do decote forrados de veludo, os bordados dos bolsos: nunca mais consegui guardar nada num dos bolsos do vestido. Nele guardei o papel que colocaste, sem que eu me apercebesse, antes de teres saído deste templo vazio que hoje visito: sou. Jamais poderá o Tempo apagar as letras que desenhaste para que os meus olhos lessem, as minhas mãos tocassem e o coração sentisse. Viverão para sempre como uma tatuagem no meu peito. Quando acordei, senti o aconchego das tuas mãos na manta que colocaste para me aquecer mas um desconforto, uma ausência de luz, ao reparar que tinhas partido. Nunca entendi porque o fizeste. Esperei dias, meses, muito tempo por um sinal teu. Até que duas Primaveras volvidas voltei a usar o mesmo vestido. A saudade chamou por ele: vesti-o e cada toque dele na minha pele era diferente. No final desse dia, um gesto, um desejo: meti a minha mão num dos bolsos e vi um papel com umas manchas amarelas: o teu papel. Palavras tuas – chorei. Lá fora a chuva chorava comigo. Nunca mostrei esse papel a ninguém: epitáfio dos nossos sentidos.
Porque há palavras que só o nosso coração entende e só ele deve guardar.

2 Comments:

Blogger Sininho said...

Sim é verdade ..há palavras que só coração sabe o significado ..jinhos

8:28 da tarde  
Blogger Caracoleta said...

E há entendimentos guardados no coração que nem chegam a encontrar palavras. Bonito sonho, papoila. Beijinho.

1:32 da manhã  

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