quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Dança inacabada

-“Toca-me. Nunca pares a meio de um toque porque no toque eu sinto outro mundo em mim: o teu”. Às vezes criamos mundos dentro dos mundos de alguém mesmo sem sabermos ao certo quem é ou de onde vem. Sabemos apenas que criamos mundos pelos odores, pelos gostos, pelas visões que o outro mundo tem. No teu caso, seduziu-me o toque do teu olhar ao cruzar o meu com desdém. Desafios que só a Alma aceita. Ontem apetecias-me: de um gesto só. Hoje muito mais do que isso. Nunca, depois de teres partido, senti um toque tão sibilino como o que me ofereceste nesse dia em que a bailarina foi gerada no meu Ser. Sentia uma dança, emoções no peito, passos novos dentro de mim: um pouco de ti. Todos os meus movimentos eram coordenadas de uma bússola desorientada – mas bela. Confusão de Sentidos. Só mais tarde desta dança que tivemos e que continuou em mim depois de partires a conheci. Uma musa. Também ela se distingue pelo toque e às vezes quando ela me toca sinto o teu toque em mim. Toda ela é um hino de Amor e cada fio negro dos seus cabelos tem o toque dos teus cabelos que um arquitecto, o das palavras, desenhou nas tábuas onde ela hoje dança. Olho o chão que ela pisa, onde ela se deita e sinto cada gemido nas ranhuras negras de cada tábua, tal como tu quando dançaste outrora em mim. Talvez a dança gere dança. Talvez.
Passados anos continuo a ver crescer a dança daquela noite: dança inacabada. Nunca mais dancei mas foi dançando a vida em mim. Parei. Expectante. Extasiei-me com olhares mendigos, com mãos nunca tão frias como as tuas, as que saboreei: mero cruzamento o dos outros em mim. Hoje sei que nunca estiveram no meio de mim, nem nunca tiveram um meio em mim. Partiste e só passadas muitas horas de incerteza recebi o teu papel: partitura inacabada. Dor sem fim.
Mas, sei que do outro lado do sítio onde moram as Almas com toques singulares tu continuas a dançar para mim. E eu olho para o alto sitio que te alberga e peço que me leve também a mim: quero continuar esta dança.

Nas partituras inacabadas há uma saudade crescente; passos de dança inquietos que pedem Morte, se necessária, para voltar a Ser gente. Sem Amor, sem o saber dançar nenhum Ser poderá a Paz alcançar.

2 Comments:

Blogger Felipe Fanuel said...

Amiga,

A dança nunca pode acabar. Dançar constitui o ato de romper com a rotina. Trata-se de uma festa e de um prazer do cotidiano. Quem dança sempre explora novos espaços e novos passos. Baila-se com a própria Vida. Afinal, viver é dançar.

Beijos p'ra ti!

7:42 da tarde  
Anonymous entremares said...

Primeira visita a este blog...

Muita melodia, Papoila.
Não sei se vem dos sonhos, ou se os sonhos são a própria melodia...

Acredito que vês uma dança inacabada, acredito que sentes os sonhos como uma realidade inacabada...

Ainda bem.
O prazer, creio
estará sempre na procura,na viagem
nunca no destino.

Obrigado.

http://entremares.blogs.sapo.pt

9:21 da tarde  

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