segunda-feira, novembro 02, 2009

Aos nomes maiores que a vida tem

“Como te extingues em mim: ainda no último e gasto nó de ar estás lá com uma faísca de vida.” Paul Celan

Um cheiro que dói. Cheiro que traz a saudade de ver quem já partiu. Cheiro que invade o cheiro da saudade da visão de quem foi morar noutro lugar, longe do meu coração. Cheiro do toque. Um cheiro que invade o nosso cheiro. Cheiro amargo que se mistura com o nosso próprio cheiro nos dias de grande solidão. Dor de não saber como estão todos os mortos que comigo caminham, lado a lado, nestas imensas veredas que a vida tem e que um dia amei. Rostos que a luz apagou, fechados na clausura de olhares intensos, gestos aprisionados na eternidade. Na maior eternidade que existe: a eternidade do amar. Há nomes que a morte não consegue apagar, nomes que ela não rouba à vida, nomes que me fizeram sorrir como bengalas que apoiam os ombros cansados nos caminhos da existência.
Um cheiro que dói mais do que a própria dor. Um cheiro mais intenso que o aperto de um abraço perdido. Um cheiro, um apenas, suave, intenso e imenso: capaz de conter nele todos os nomes dos que um dia amei e de todos os cheiros de prazer que comigo ainda se hão-de cruzar.
Farrapos amargos de fina cambraia envoltos num laço gigante de amor. Farrapos eternos que a noite traz aqui. Farrapos que invadem a memória e vêm morar comigo neste casebre de emoções, sem tecto.
Nesta casa de humildes confortos onde a saudade se demora como uma filha querida moram todos os gestos, todos os pedaços de amor ofertados por aqueles que a vida levou. Almas. Peregrinos, às vezes viajantes em contramão (e por isso distantes dos meus ideais) mas que a vida não pode ignorar porque um dia, ainda que sem saber, me amaram com meio gesto, um resquício de olhar igual ou distante do meu, um pedaço de dia dos dias de cada um.
Há nomes grandes, os maiores que a vida tem e esses são eternos para mim porque os amo, um a um de forma desigual, na imparidade de a todos o amor ofertar. São nomes tatuados na solidão que me faz companhia e no silêncio que tanto me diz.
Todos os nomes maiores que a vida tem e o amor eterniza são a minha casa.

6 Comments:

Blogger isabel said...

Obrigada pela partilha... muito interessante os textos.

Abraço forte e sonha sempre

1:24 da tarde  
Blogger Anita said...

A grande arte da vida é acordar depois de ... um sonho, levantar depois de ... um tombo, sorrir depois de uma ... decepção... e nunca desanimar!!!
É olhar em frente com a esperança de vencer!!!


Beijinhos doces e votos de um maravilhoso fim de semana.
Fica bem. Fica com Deus.
Anita (amor fraternal)

8:46 da manhã  
Blogger Lilá(s) said...

Tens textos maravilhosos! gosto muitõ.
Bom fim de semana.
Bjs

9:16 da tarde  
Blogger Teresa Calcao said...

Sinto a mesma dor......e a mesma saudade!!!!!!!
Beijinho para ti minha Papoilinha linda!

8:31 da tarde  
Blogger Luís Mendes said...

"Na maior eternidade que existe: a eternidade do amar."

Que boa obra me fez lembrar, esta passagem do seu post, Boécio em "De consolatione philosophiae".
Onde faz a distinção entre eternidade e perpétuidade.

Gosto dos textos. Parabéns! =)

8:28 da manhã  
Blogger Luís Mendes said...

Sim, já me recordo, a escrita em si não me faz lembrar propriamente Boécio, mas sim o tema eternidade/perpetuidade.
=)

Abraço

1:54 da manhã  

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