segunda-feira, janeiro 03, 2011

Como uma tentação

"Não nos deixar cair em tentação, é o mesmo que dizer: Não nos deixar ver quem realmente somos". Arthur Schopenhauer

Frio. Sombra. Rio. Quase um poema que não leste. Quase uma boca que desconheceste (não foram os beijos que não eternizaste e ficarão, sempre, por partilhar, são as palavras que calaste, os sons que ficarão, sempre, por dizer); quase um rosto que não vês (olhos da mesma viagem que os teus, lábios famintos de pão, pálpebras de nostalgia); quase duas mãos entrelaçadas nas, duas, tuas (o carinho que se escapou dos teus dedos, os afectos de seda em mãos de veludo); quase um ser humano ao teu lado (olhos, boca, rosto, lábios, mãos e tudo o que nunca viste porque nunca olhaste).
Frio. Sombra. Rio. Quase um poema que ficou por dizer. Quantas palavras não são beijos e quantos beijos ficam sem som porque a Alma não eterniza e o corpo rejeita? Quantos ecos se perdem numa paisagem que não é frio, nem sombra porque nenhum rio existe?
Quantos nas mãos de um destino, cego e pálido, caminham como se apenas houvesse frio, sombra e um rio – que não existe? Nada existe. Nada. Nada mesmo. Existe, apenas, um pedaço de céu, um espelho, de mim, nos olhos do outro; existe uma névoa que quase parece sombra (sem o ser); existe uma margem de um rio que para outros não existe. E existe frio. Existe muito frio quando o olhar não te alcança, e as mãos não te tocam como um poema que quis ler mas a sombra, o frio e o rio (que pensei existir) não deixaram.
Do outro lado, de algum lado ou de lado nenhum, um pano cai e o acto acontece como um poema que não leste. Como um poema que ficou por dizer… Queda-se a noite e os sonhos que não leste no poema que quase existiu, voltarão como uma tentação disfarçada de frio e sombra num rio que apenas tu vês, quando nada existe. Porque todas as tentações são frio e sombra das coisas que um rio guarda.

4 Comments:

Blogger Just by myself said...

Quem merece que outra pessoa viva em tanta dor?
A personagem que você cria nesse texto deseja tanto!
A pessoa desejada merece tamanha paixão?

Quantas vezes se quer tocar as mãos de alguém, e nenhuma chance...
Tocar as mãos, quando se banalizou a intimidade física entre dois seres humanos. Um contato que pode ser tão sublime, fica estagnado na superfície, longe da alma, incapaz de romper os limites corporais.

Porque pessoas capazes de nutrir sentimentos tão belos os dirigem a outras incapazes de apreender a grandeza que sustenta esses sentimentos?

Alguém para quem se fez um poema que nunca será lido!

Essas imagens de frio, sombra e rio me intrigam:
Esses sonhos sufocados em poemas.
que nem sequer se tornam sussurros!!!

É muita crueldade...

11:37 da tarde  
Blogger H A R R Y G O A Z said...

Brilliant.

4:23 da tarde  
Blogger Teresa Calcao said...

Continuo longe....mas contigo no coracao!
Happy New Year,dear!!!
xo

1:44 da manhã  
Blogger VÉU DE MAYA said...

Quem poderia ver isso? Só de forma difusa, pois a consciência nas suas representações ilumina uma parcela ínfima do que a vida tece, seja lá onde for...Schopenhaeur foi inspiração para Nietsche, mas...

o meu site só com poesia minha:
www.veudemaya.poesia.blogspot.com

se quiseres visitar.
bjinho,

Véu de Maya.

4:36 da tarde  

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