sábado, agosto 28, 2010

Das palavras perdidas

“nitimur in vetitum” Ovídio

Um dia a vida acaba e sempre quero ver o que hás-de inventar a seguir, tu que não viveste…

Olho-te e a única pergunta que me retira o sono nesta madrugada de silêncio não encontra resposta. Os olhos não se fecham. Quando te olho, afasto de mim o sono: enfrento todos os demónios, um a um, do mais forte ao mais frágil. E quando te olho, apenas quando te olho encontro morada de mim em ti.
Nenhuma pessoa pode ser um templo tão vazio como aquele que me habita quando não me sei nas palavras. Nenhuma coisa em nenhum dos mundos pode ser tão intensa como o frio da ausência de palavras que deixas em mim.
Mataste-as. Tu mataste as palavras, uma a uma, e aprisionaste-me naquela parte que se esqueceram de amar em ti.
Vagueio na noite sem respostas como um corpo sem pertença. Já não sou. Esqueço-me de ser em mim porque te olho mesmo sem te ter perto – seja o que for o perto, uma das palavras que não tu mas eu fui, também, matando em mim: todas as palavras parentes do tempo eu as matei e depois vieste tu e mataste todas as outras. E são tantas as que ficam por dizer, as que não encontram casa.
Aniquilando as palavras - lithium, soro fisiológico - esvai-se a protecção das emoções: sou-me tão frágil na noite, sem palavras. Aniquilando as palavras perco a identidade: sou-me, sem definição, nem mesmo um espectro de luz; sou-me sem humanidade. Por isso, vagueio.
Porque se esqueceram de amar essa parte de ti?

2 Comments:

Blogger Wanderley Elian Lima said...

Fiquei sem palavras...
Bjux

6:30 da tarde  
Blogger Nilson Barcelli said...

Excelente texto.
Encontrei o blogue por acaso. Mas vou ler mais, porque este post abriu-me o apetite...

10:34 da manhã  

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